Sábado, Novembro 25, 2006

Sobre nascimentos


Hoje à tarde, colocamos a decoração de Natal. Buscamos as três caixas que estavam guardadas no depósito e começamos a abrir. A cada novo enfeite descoberto, mais gritinhos empolgados: - "Ai, ,mãe, olha que amor!" - "Olha, só, um sininho!" - "Mãe, lembra que a gente tinha essas estrelas? E essa bola com o papai noel desenhado?"
Assim, abrimos todos os enfeites e comecei a montar a árvore. Enquanto encaixava os galhos na base, lembrei que todos os enfeites (e a árvore também) só estavam ali graças a Marina e a Sofia. Por causa delas, quis ter o Natal completo, com árvore, guirlanda na porta, casa enfeitada, espírito preparado. O nascimento de Cristo passou a ter um sentido diferente depois do nascimento delas. Lembrei do primeiro Natal das filhotinhas, aos quatro meses, quando tínhamos acabado de construir a casa, num momento onde faltavam até mesmo algumas coisas essenciais, que dirá uma árvore festiva. Para o segundo Natal, compramos um cipreste, daqueles bem cheirosos e enchemos de laços vermelhos, foi a primeira árvore das passarinhas. O cipreste secou durante o ano, porque não se adaptam dentro de casa, mas a gente só soube disso quando era tarde demais.
No outro Natal, compramos a árvore mais legal que a gente podia. Até que grande, mas com galhos espaçados, porque as árvores mais cheinhas eram mais caras. A nossa árvore magrinha está lá na sala agora. Todos os anos, a gente aumenta o número de bolas, sinos, enfeites. Também temos pendurado nela algumas lembranças carinhosas de amigos, cartões, recordações. A cada ano, nossa árvore, que começou tão simples, fica mais bonita. Como as pessoas. Como a gente mesmo. Como viver.

posted by Ale
9:14 PM
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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Dia dos que estão vivos

Ontem foi dia de finados. Onde moro é muito forte essa cultura de utilizar a data para fazer visitas aos cemitérios, limpar as lápides, trocar as flores. Nós, não. Desde crianças, nunca costumamos fazer essa "celebração." Talvez por isso me pareça tão estranho. Ou talvez não seja por isso, seja uma coisa minha mesmo. O local onde está enterrado alguém que amamos não diz muito para mim.
Acho o dia dois de novembro perfeito para pensar em quem amamos e se foi.
Ontem, especialmente, lembrei do meu avô, Otto. Eu contava para a Sofia e a Marina como ele era uma pessoa tão paciente, tão atenciosa, tão amada. Como morávamos longe, viajávamos muito e, quando chegávamos à casa dele, logo éramos transportados para o seu colo e para um mundo onde haviam vacas e porcos, casinha improvisada na árvore e um parreiral, cujo cheirinho de uva roxa e folha verde demoro a esquecer. Embaixo desse teto natural e perfumado, corríamos, com as uvas e suas folhas desenhando sombras nos nossos rostos. Perto dali, nos deliciávamos com o mel em favo, que o vô trazia. Com as frutas, com as suas flores e a sua voz rouca. Com a festa da primavera no bosque. As lembranças são muitas e provocam muitos sorrisos e saudades, eu disse para elas. Também o Natal me faz lembrar muito do meu avô magro, alto, com quem meu pai é muito parecido. O vô Otto montava uma árvore de Natal com lâmpadas queimadas, dessas que utilizamos em casa, que ele mesmo pintava e pendurava no pinheiro, em frente de casa. A árvore era simples, mas todo o cuidado e carinho com que ele fazia isso para nos esperar era o que dava uma luz especial no pinheiro. Ele foi o único que gostava da música que saía da minha flauta desafinada, nem eu mesmo gostava. Marina e Sofia riram muito aqui. O vô também foi único a me ver quando eu estava com cachumba, na cama, em uma dessas reuniões de família. Ficou lá, sentado, me contando causos, que eu queria dar risada, mas o pescoção inchado pela doença dificultava. Ele enganava a vó e mexia no chimarrão quando ela não estava olhando, para ficar com mais gosto de erva, ela não gostava nadinha disso. Ele era sapateiro e a gente brincava muito com os pares de sapato que ficavam lá, ano após ano, sem que ninguém comprasse, até saírem de moda.
Um dia, também o seu tempo passou e ele se foi. Fecharam a sua loja/sapataria. O parreiral murchou. O pinheiro perdeu a luz.
Ontem, eu queria ter tomado um vinho de uvas roxas ou com cheirinho de folha verde, queria ter chupado um mel no favo, queria ter montado uma árvore de Natal. Porque, expliquei para as filhotinhas, dia de finados não é dia de chorar. Mas é uma boa hora de lembrar dessa gente amada de uma forma especial, celebrar e agradecer a presença delas na nossa vida. Lembrar com carinho do que elas nos ensinaram e de como nos fizeram felizes. Porque, enquanto alguém que já viveu é lembrado com carinho, não importa onde está hoje, vai continuar vivo no coração da gente.

posted by Ale
1:18 PM
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