Sábado, Julho 29, 2006
Ainda sobre o tempo
Talvez porque eu esteja sem tempo, não paro de pensar nele, sabe? Lembrei agora de uma historinha que aconteceu num meio-dia desses.
As meninas se encantaram com uma ampulheta e acabamos comprando uma para cada. Chamamos para o almoço e elas trouxeram os brinquedos novos junto. Até que foi bem providencial. Elas começaram a cronometrar o tempo das garfadas com a ampulheta: enquanto a areia descia, elas iam mastigando. O almoço correu rapidinho.
Só que a Sofia terminou o prato antes que a Marina e ela não gostou nadinha. Aí a Marina desistiu da brincadeira.
- Ô Nina, agora já virei a ampulheta e, olha, o tempo tá correndo, come, come logo essa garfada - falou, provocativa, enquanto a areia descia.
- Eu não quero mais! Pára. - disse uma Marina bem furiosa.
- Não dá. Agora já tá correndo.
- Ah, é? Então, olha aqui! - e deixou a ampulheta na horizontal, parando imediatamente o fluxo da areia.
Pois é, filhotinhas. A mamãe não está tendo muito tempo para a gente ficar junto, né? Não temos brincado muito nos últimos dias, não temos quase passeado ou feito bolo ou biscoitos. Não desenhamos mais, nem brincamos de sapata. Não pintamos, não olhamos mais filmes juntas. Às vezes, nem almoçamos juntas (a mamãe acaba nem almoçando). Puxa, estou sentindo a maior saudade disso tudo e sei que vocês também. Mas essa falta de tempo não é para sempre. É só agora. A mamãe está menos presente porque tem 20 dias para terminar a monografia dela, que é aquele trabalhão da aula da mamãe (da pós-graduação). Ainda tem mais de 100 entrevistas para fazer, um montão de livros para ler, muitas palavras para escrever e não está contente com o que ela escreveu até agora. E a areia do tempo lá, correndo, acelerando cada vez mais. Sabem o que me fez parar tudo agora e pôr um sorriso no rosto (cansado)? É que eu me imaginei fazendo o que a Nina fez: virando a ampulheta e deixando as areias do tempo bem paradas. Para correr só quando eu quisesse. Que maravilha. Tá certo, isso não vai mudar nada no meu prazo, pelo contrário. Estou aqui escrevendo no Mãe de Gêmeas enquanto tinha que estar escrevendo na monografia, mas quer saber? Vou voltar pro trabalho mais animada, porque, gurias, vocês são inspiradoras.
posted by Ale
10:11 PM
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Quarta-feira, Julho 19, 2006
"Amada,
não me aguentei e sentei aqui no micro 5 minutinhos para tentar expressar, com imagem, a ternura que senti com seu post sobre a janelinha da Sofia.
Me tocou tanto, amei tanto que, de repente, as coisas todas da vida, os problemas todos que a gente tem, e até esses mesmos de menina como cair o primeiro dente e abrir a primeira janelinha, tudo ficou leve, tudo.
Tudo é tão simples e tão puro quando a gente aprende com você, ai, se você soubesse...
Fiz assim, de pressa, só para ilustrar a delícia daquele post. E nem posso dizer que o haikai é meu. Foi você quem fez ele assim, com essas palavras,
com essa ternura..."
Foi a doce Lilli quem escreveu. Mas fui eu que fiquei muito emocionada.
Obrigada pelo carinho. De coração.

posted by Ale
3:19 PM
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Segunda-feira, Julho 10, 2006
Tempo certo
Há pouco tempo atrás...
- Mãe, por que o dente da Marina já caiu e o meu, não? - A Sofia me pergunta, tentando entender porque a irmã está de porteirinha, mostrando a novidade para Deus e o mundo e ela, não.
Eu explico que o dentinho dela logo, logo vai cair, que está até frouxinho, que é só uma questão de tempo.
Ela insiste:
- Mas se a gente nasceu no mesmo dia, por que o dela tem que cair antes que o meu?
- Puxa, filhotinha, mas a mamãe sempre diz que, embora vocês tenham ficado juntas na barriga da mamãe, embora tenham nascido juntas, sejam parecidas, não são pessoas iguais. Cada uma tem um jeitinho diferente, gosta de coisas diferentes, até de cores diferentes. Claro que o dentinho iria cair em dias diferentes, né?
- Mas, mãe, é que a gente tem os mesmos anos...
- Filhota, tu viu aquelas duas árvores de pitanga que a gente plantou no ano passado? Elas têm a mesma altura, mesmo tamanho, mesmo tudo, tudo. E tu viu que só uma delas deu flores até agora? Ficamos bem felizes que vamos comer pitanga no verão. E ainda olhamos para a outra árvore e dissemos que não tinha problema que ela não tinha dado flor ainda e que a gente também iria ficar feliz quando ela tivesse flor, lembra?
Ela fez que sim com a cabeça.
Então - eu continuei - tudo acontece no tempo certo, quando está pronto, quando está maduro. O teu dente também vai cair no tempo certo e a gente vai mostrar para todo mundo, vai fazer festa também, assim como quando a outra pitangueira der flor. Vão ser mais duas festas aqui em casa, né? Ah, mas olha só, se tu realmente quiser apressar a queda do dentinho, pode ficar mexendo nele, que assim ele cai mais rápido.
Ela me responde, com a sabedoria das crianças:
- Não, mãe, vou deixar o dente cair no tempo certo, quando ele quiser.
(Há alguns dias, o dentinho caiu naturalmente e a Sofia, realizada, abriu seu feliz e desdentadinho sorriso para todos. Ah, a segunda pitangueira também abriu uma pequeninha, mas linda florzinha nesta manhã. E todos nós comemoramos muito.)
Eu, sem dente (desenho da Marina)
posted by Ale
5:57 PM
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Quarta-feira, Julho 05, 2006
O mundo fashion da rodoviária
A minha irmã Rosana é a temporona da casa. Hoje, ela está com 20 aninhos e é maior que todas as irmãs. Está morando fora do Estado e isso dá muita saudade. Quando ela vem para o Sul, muitas vezes vou com as pintinhas buscar ela na rodoviária, porque não tem vôos para o interior. Elas amam a visita da madrinha. É a dinda mais nova delas.
A Rosana nasceu quando eu tinha 13 anos. Foi muito lindo acompanhar a gravidez da minha mãe depois que eu já tinha idade para entender algumas coisas.
Lembro de ela colocando aquelas esquisitas roupas de grávida, comendo um monte de coisas diferentes do que sempre comera e muito, mas muito tomate com sal e isso a qualquer hora do dia, no meio da tarde, por exemplo. Lendo revistas sobre bebês, se informando com as amigas. Coisas que eu me veria fazendo dali a exatamente 13 anos. Parece que a gente nunca está preparada para a maternidade, não é mesmo? E olha que a minha mãe já havia tido três filhos, ou melhor, três filhas. Todas mulheres, inclusive a última.
Lembro também que a Rosana chegou num dia de jogo da Copa do mundo, em 1986. Foi cesárea. Ela nasceu enrugadinha, enrugadinha, toda melecada. Eu e minhas irmãs, crianças grandinhas que éramos, achamos ela bem feinha naquele dia. Bem diferente de hoje ou de qualquer outro dia da vida dela. Prova disso, que trabalha como modelo. Linda, linda. Não só por fora, que isso é muito fácil hoje em dia. Linda por dentro também. Carinhosa, querida, inteligente, madura. Além dessas coisas importantes, ainda tem o detalhe de ser super fashion, viver aparecendo em revistas, outdoors, tv. As pessoas vêm me falar que viram ela estampada aqui e ali ou em vts na tv. É a nossa menina famosa, viaja muito e está sempre em lugares maravilhosos.
Para a Marina e a Sofia, claro, esse mundo glamoroso está bem distante. Ela é só a dindinha Rosana e está morando longe. Quando ela vem, é uma festa.
Dia desses, foi a vez da vovó Neusa, que também mora distante, mas não tanto, vir nos visitar. Ela ligou avisando que havia chegado e que viera de ônibus. Convidei, então, as duas para buscar a vovó na rodoviária e a Sofia perguntou:
- Mãe, o que é que é rodoviária?
Antes que eu pudesse responder, a Marina vira para ela e larga a pérola:
- Sô, rodoviária é aquele lugar onde a dindinha Rosana seeeeeempre está, lembra?
A dindinha Rosana
posted by Ale
11:49 AM
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